Depois da crise econômica assolar o nosso mundo e começarmos a nos recuperar, aliás, segundo nosso presidente Lula, nunca nem fomos afetados, o que mais algumas pessoas, de sorte, diga-se de passagem, fizeram, foi entrevista de emprego.
Ah, e que momento mágico, a tábua de salvação quando a corda no pescoço já está bem apertada. Primeiro manda-se o currículo via internet, pessoalmente não porque já não é aceito, é coisa da época que nele constava datilografia. Depois de feito o cadastro vem a espera, olhar no celular a cada minuto, testar se está mesmo com sinal, é mais ansiedade que esperar o telefonema no dia seguinte ao primeiro encontro.
Quando finalmente recebemos o retorno, meses depois do prometido, é uma mistura de alívio e mais ansiedade. Sim, muito mais, afinal agora será frente a frente, a famosa e temida dinâmica. Será que dinâmica tem alguma coisa a ver com dinamite? Melhor nem pensar nisso antes dela.
Um dia antes do marcado, a roupa já está devidamente preparada (aquela que é especial para entrevistas de emprego, sempre a mesma), o relógio colocado pra despertar uma hora antes do necessário e a televisão ligada, afinal dormir é a única coisa que ninguém consegue fazer no dia anterior ao da entrevista de emprego.
Chegado o dia, o candidato comparece ao local marcado uma hora antes do horário agendado, só pra garantir, aliás, todos os candidatos. Todos entram na sala e então conhecem o dono do seu destino, aquele que tem você nas mãos, o psicólogo ou chefe de Recursos Humanos.
Primeiro as provas: português, matemática, redação, que com toda certeza terá um tema que você nunca ouviu falar, mas que vai dissertar por linhas e linhas até perceber que seu texto está maior do que o do candidato ao lado.
Depois das provas ela, a dinâmica. Todos se apresentam, falam de suas experiências profissionais como se sua função exercida até o momento tivesse salvado a humanidade, tamanha a importância. Finalmente, o psicólogo aborda cada um dos presentes, e aí descobre-se que todos tem ótimas e inúmeras qualidades, mas também têm um defeito: a ansiedade, porque dizem que esse defeito é o padrão para se falar nas entrevistas de emprego. As pessoas egoístas, malvadas, vingativas ou até mesmo tristes, essas nunca vão a entrevistas assim, só as ansiosas comparecem.
Então de repente, no auge da tensão de todos, o psicólogo pergunta: “Se você fosse um bicho, qual bicho você seria?”. Bicho? Mas você é tão feliz sendo um simples ser humano até hoje e agora tem que ser um bicho? O candidato pode até tentar, em frações de segundo, decifrar a lógica da questão, mas a lógica é lógica, nenhuma. Então, entre questionar se ele estudou anos na faculdade, fez pós-graduação, participou de uma dinâmica pra entrar na empresa dele e estar apto para aplicar a sua dinâmica, para isso? O pobre candidato simplesmente faz sua melhor cara de conteúdo e se divide em respostas como: “Eu seria uma girafa, porque as girafas gostam de trabalhar em grupo”, ou “eu seria um elefante, que é inteligente e compreensivo”. Quem foi que disse que a girafa trabalha em grupo? E o elefante, alguém perguntou pra ele se ele é mesmo compreensivo? Mas diante da cara de satisfação do entrevistador você pensa: “esse emprego é meu”.
E, a partir de então, você entra nas estatísticas de que o desemprego vem diminuindo no Brasil. Deve ser por causa da consciência ecológica, todos sabem muito mais sobre os bichinhos.
*Crônica escrita em 18/11/2009