sexta-feira, 30 de março de 2012

Que bicho você é?


Depois da crise econômica assolar o nosso mundo e começarmos a nos recuperar, aliás, segundo nosso presidente Lula, nunca nem fomos afetados, o que mais algumas pessoas, de sorte, diga-se de passagem, fizeram, foi entrevista de emprego.
Ah, e que momento mágico, a tábua de salvação quando a corda no pescoço já está bem apertada. Primeiro manda-se o currículo via internet, pessoalmente não porque já não é aceito, é coisa da época que nele constava datilografia. Depois de feito o cadastro vem a espera, olhar no celular a cada minuto, testar se está mesmo com sinal, é mais ansiedade que esperar o telefonema no dia seguinte ao primeiro encontro.
Quando finalmente recebemos o retorno, meses depois do prometido, é uma mistura de alívio e mais ansiedade. Sim, muito mais, afinal agora será frente a frente, a famosa e temida dinâmica. Será que dinâmica tem alguma coisa a ver com dinamite? Melhor nem pensar nisso antes dela. 
Um dia antes do marcado, a roupa já está devidamente preparada (aquela que é especial para entrevistas de emprego, sempre a mesma), o relógio colocado pra despertar uma hora antes do necessário e a televisão ligada, afinal dormir é a única coisa que ninguém consegue fazer no dia anterior ao da entrevista de emprego.
Chegado o dia, o candidato comparece ao local marcado uma hora antes do horário agendado, só pra garantir, aliás, todos os candidatos. Todos entram na sala e então conhecem o dono do seu destino, aquele que tem você nas mãos, o psicólogo ou chefe de Recursos Humanos. 
Primeiro as provas: português, matemática, redação, que com toda certeza terá um tema que você nunca ouviu falar, mas que vai dissertar por linhas e linhas até perceber que seu texto está maior do que o do candidato ao lado. 
Depois das provas ela, a dinâmica. Todos se apresentam, falam de suas experiências profissionais como se sua função exercida até o momento tivesse salvado a humanidade, tamanha a importância. Finalmente, o psicólogo aborda cada um dos presentes, e aí descobre-se que todos tem ótimas e inúmeras qualidades, mas também têm um defeito: a ansiedade, porque dizem que esse defeito é o padrão para se falar nas entrevistas de emprego. As pessoas egoístas, malvadas, vingativas ou até mesmo tristes, essas nunca vão a entrevistas assim, só as ansiosas comparecem. 
Então de repente, no auge da tensão de todos, o psicólogo pergunta: “Se você fosse um bicho, qual bicho você seria?”. Bicho? Mas você é tão feliz sendo um simples ser humano até hoje e agora tem que ser um bicho? O candidato pode até tentar, em frações de segundo, decifrar a lógica da questão, mas a lógica é lógica, nenhuma. Então, entre questionar se ele estudou anos na faculdade, fez pós-graduação, participou de uma dinâmica pra entrar na empresa dele e estar apto para aplicar a sua dinâmica, para isso? O pobre candidato simplesmente faz sua melhor cara de conteúdo e se divide em respostas como: “Eu seria uma girafa, porque as girafas gostam de trabalhar em grupo”, ou “eu seria um elefante, que é inteligente e compreensivo”. Quem foi que disse que a girafa trabalha em grupo? E o elefante, alguém perguntou pra ele se ele é mesmo compreensivo? Mas diante da cara de satisfação do entrevistador você pensa: “esse emprego é meu”.
E, a partir de então, você entra nas estatísticas de que o desemprego vem diminuindo no Brasil. Deve ser por causa da consciência ecológica, todos sabem muito mais sobre os bichinhos.


*Crônica escrita em 18/11/2009

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Aprendendo a amar


Aprender a amar, tem fórmula? Ensina na escola ou é em casa que se aprende?

Sempre tive a certeza de que não se aprende a amar, simplesmente se ama. Passamos a vida inteira convivendo com amores despretensiosos, puros, aqueles que só dependem da sua intensidade de amor para serem plenos. O amor de mãe, ou melhor ainda, o amor dos pais. Esse é o mais fácil, nada é necessário para atraí-lo ou mantê-lo e o simples fato da sua existência já basta para que ele exista. Os amores da infância. O ursinho velho já encardido, a mamadeira, o berço, tudo arrancado à força para que pudéssemos crescer, mas que receberam um amor incondicional e que levamos muitas vezes para a vida toda. Falando ainda de infância, o amor das crianças é simples. Um se aproxima, olha, o outro ri e pronto, com toda sua inocência, já se amam desde aquele momento. Aquela planta que parece crescer mais forte quando damos atenção e água, os animais de estimação que nos estimam em troca de cafunés e tantos outros amores.

Ouvimos os poetas declamarem sobre outro tipo de amor, um que pode até machucar, mas que tem o poder de curar qualquer tristeza. Esse que, apesar de termos amado a vida toda, passamos toda nossa existência em sua busca.

Lutamos, procuramos, muitas vezes nos confundimos achando que ele foi encontrado, mas não. Quando ele chega tudo muda, nós sabemos que é ele e então descobrimos que não sabemos amar. Não esse amor. Para esse amor não basta a nossa existência ou um agrado. Ele é exigente e quer ser correspondido, cuidado, administrado diariamente para que sobreviva aos dissabores e desamores que o acompanham.

Declarações apaixonadas, entrega e devoção darão intensidade mas não será o suficiente. Quando ele chega, acompanhado de uma dose intensa de paixão, ficamos sonhando, planejando futuros próximos ou distantes e idealizando que ele é e seja sempre perfeito. Mas é com os pés no chão, acordados para a realidade que descobrimos que ele está longe da perfeição. Muitas vezes é o seu oposto, repleto do que você contesta ou condena e ele erra, ah como erra. Te machuca da forma que você não aceita, dele não! E você faz exatamente a mesma coisa com ele, descarregando de uma vez todas as suas imperfeições e defeitos.

Para lidar e cultivar esse amor tão carregado de emoções é necessário serenidade sempre. Saber colocar toda a carga de sentimentos ao lado e dar lugar à sensatez. É preciso entender que tudo o que você teve e amou continuam com o mesmo espaço e importância que tiveram sempre e que são esses amores que te apoiarão nas suas dúvidas, desilusões e decisões justamente, amorosas. É preciso saber ouvir para pensar e saber falar. Antes de entender o outro é preciso se entender. Ter ciência dos próprios sentimentos e aceitar seu valor e importância. E amar a si mesmo é o mais difícil, afinal, você conhece todas as suas fraquezas e defeitos mais do que ninguém e vai conviver com você para sempre.

Se amando, é possível amar e permitir ser amado. Entender que assim como você, não existe amor perfeito, mas sim o seu amor, que te faz feliz sem motivo, somente sendo seu.

Aprender a se amar é o caminho para aprender a amar.